PROJETOS SAEM DOS LABORATÓRIOS E CHEGAM ÀS EMPRESAS

Muitos projetos desenvolvidos nos laboratórios de universidades ficam restritos apenas a estes espaços, quer seja por falta de apoio ou de interesse financeiro de empresas. Mas o caso da pesquisa da engenheira química e doutora em geociências Shirley Cosin, 63 anos, é diferente. Jundiaiense, ela, que sempre foi acostumada a trabalhar em indústrias cerâmicas, mudou a rotina para se dedicar à vida acadêmica.

“Comecei a observar a escassez de matéria-prima na Região, assim como acontece em tantas outras partes do País, além do desperdício de materiais da construção civil.” Mas o pontapé para desenvolver pesquisas voltadas à área de reaproveitamento de rejeitos sólidos veio através de estágios feitos em Portugal, Alemanha, Espanha e Itália. “A experiência me fez conhecer a reciclagem de rejeitos, já que nesses países isso é bem comum.”

Atualmente, Shirley é pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), onde desenvolveu um projeto de pesquisa no laboratório de matérias-primas particuladas e sólidas não metálicas, do Departamento de Engenharia Metalúrgica. “Estudei e concluí o uso adequado de seis tipos de rejeitos sólidos: lodo de estação de tratamento de água, rejeitos da indústria cerâmica de sanitários de Jundiaí, casca de arroz, rejeitos da construção civil, pó de pneu e cerâmica sanitária queimada.”

Os trabalhos, que tiveram início há dois anos e meio em laboratório, cativaram indústrias de Jundiaí, que abraçaram a ideia. “Isso é muito bom, pois é gratificante ver nosso trabalho reconhecido e colocado em prática por empresas.”

Resistência e qualidade – De acordo com a engenheira, já existem cerâmicas em Jundiaí produzindo blocos e tijolos a partir da reutilização de rejeitos sólidos. “Além da economia na produção, já que o uso de rejeitos significa menor uso de matéria-prima (uma economia de 20% para a natureza), os produtos são mais resistentes e possuem melhor qualidade se comparados aos convencionais.”

Um exemplo é o bloco feito com pó de pneu. “Como a borracha queima rápido os blocos feitos a partir deste material queimam com mais rapidez, o que gera economia de madeira (utilizada nos fornos). Isso sem falar que os blocos ficam 20% mais leves, 30% mais resistentes e com a cor mais uniforme.” Na aparência, os produtos não perdem em nada para os convencionais.

Tanto a cor como os modelos são iguais. “Antes de serem levados às indústrias os materiais passaram por testes da Associação Brasileira de Normas Técnicas, dos quais foram aprovados. Eles são livres, inclusive, de qualquer tipo de contaminação.” Os blocos de concreto também foram aprovados pela Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP).
Inédita – Apesar de já existirem produtos feitos através do reaproveitamento de resíduos, a pesquisa feita pela engenheira química é inédita. “É um marco na reciclagem de resíduos sólidos. E o melhor é saber que as pesquisas alcançaram as empresas.” Shirley ressaltou que, além do reaproveitamento dos rejeitos, também há um fator importante a ser destacado. “Todos os rejeitos reaproveitados estão deixando de serem levados a um aterro, evitando, assim, comprometer ainda mais o meio ambiente.”

Com os avanços na área de reciclagem, a engenheira acredita que em breve as empresas do setor de construção civil passarão a adotar cada vez mais a reutilização desses materiais descartados. “É uma tendência que vai crescer. Vai chegar uma hora em que não teremos mais tantos recursos naturais disponíveis e a reciclagem é uma grande opção para essa escassez.”

Fonte : ANICER www.anicer.com.br