BENCHMARKING DE SOLUÇÕES CONSTRUTIVAS: A EXCELÊNCIA DAS ALVENARIAS CERÂMICAS PARA UMA CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL

Luis Geraldes e Honório Campante (Engenheiros Cerâmicos – Universidade de Aveiro – Portugal) LG CONSULTING – Management & Materials Engineering

A modernização tecnológica que a indústria cerâmica no Brasil promoveu nos últimos anos, com algumas unidades industriais a equiparem-se com as melhores tecnologias de produção, ao nível do estado da arte para o sector a nível mundial, permitiu um notável incremento da oferta de tijolos cerâmicos, quer em quantidade quer em qualidade. Existem hoje empresas que se distinguem por padrões técnicos e de qualidade de excelência, a par com o respeito por preocupações ambientais e sociais, condições essenciais para o desenvolvimento sustentável.

No entanto, estes investimentos estruturantes para o cluster da construção, não têm merecido o devido reconhecimento dos agentes e dos reguladores do mercado, em particular dos agentes comerciais em geral, que continuam a promover a utilização indiscriminada dos blocos de cimento, nomeadamente em habitações e infraestruturas industriais e comerciais, assim, como em algumas estruturas públicas de serviço às populações, e que beneficiam do défice de conhecimento técnico sobre matérias de construção e seus regulamentos (qualificação/certificação de produtos e exigências da construção), o que distorce os princípios da concorrência ao conceder vantagens competitivas ao bloco de cimento, vincadas através do preço de custo/venda, sem atender com eficácia às diferenças a nível da qualidade técnica que diferencia estes dois produtos concorrenciais.

Desta forma, discriminam-se negativamente os tijolos cerâmicos, que pelas suas vantagens deveriam, ao contrário, justificar a sua promoção como material de excelência para a construção. Isto é, existem diversas desvantagens funcionais do cimento relativamente à cerâmica, como à frente será pormenorizado.

Assim, torna-se imprescindível a sensibilização para as vantagens da utilização dos tijolos como elemento de excelência para a construção sustentável, de forma a sustentar e acelerar a redefinição das políticas públicas de qualidade implícitas nas recentes normas ABNT NBR 15812-1: 2010 Alvenaria estrutural – Blocos cerâmicos, Parte 1: Projectos, e, ABNT NBR 15575-4: 2013 Edifícios habitacionais – Desempenho, permitindo endogeneizar as soluções de alvenaria cerâmica adoptadas noutros países, onde soluções alternativas à construção com blocos de cimento estão mais desenvolvidas, implementadas e consolidadas.

A utilização de tijolos cerâmicos proporciona melhor conforto, salubridade, durabilidade e qualidade da construção. As características técnicas que evidenciam são a base de serem universalmente considerados materiais de excelência para a construção com benefícios de longo prazo, nomeadamente na economia de energia, na melhoria da higiene, saúde e segurança das habitações. Em particular, apresentam diversas vantagens relativamente aos blocos de concreto, quer em termos de características técnicas e desempenho funcional (superior isolamento térmico, adequado isolamento acústico e resistência mecânica, melhor resistência ao fogo, consideravelmente menor peso, maior durabilidade, impermeabilidade e humidade de equilíbrio da habitação), quer na aplicação (economia de argamassa, maior rapidez de construção, facilidade de abertura de roços para passagem de cabos e canalização, menor risco de trincas) quer ainda na manutenção (menor propensão ao aparecimento de humidades, durabilidade das alvenarias e das tintas ou 48 Revista da Anicer | nº 86 outros revestimentos de superfície aplicados).

Seguidamente, detalha-se o benchmarking dos tijolos cerâmicos de furação horizontal (vulgo bloquinho) e dos blocos de concreto com inertes naturais relativamente a um conjunto de características técnicas com maior relevância para o seu desempenho funcional, seja na fase de projeto, construção ou utilização dos edifícios.

• Conforto e Isolamento Térmico. É reconhecido o excelente desempenho da alvenaria cerâmica relativamente ao cimento, querem termos do material cerâmico, quer do elemento alvenaria (tijolo). Os valores da resistência térmica são função da condutibilidade térmica dos materiais (λ), sendo tipicamente de 0,55 W/m.K para os cerâmicos e de 1,19 a 1,72 W/m.ºC para o cimento1. Deste facto resultam valores típicos de isolamento térmico (k) de 1,3 – 1,8 W/m2.K para os tijolos e de 2,2 – 2,6 Wm2.K para os blocos de cimento2. Isto é, para a mesma espessura de parede, o isolamento dos tijolos pode duplicar o dos blocos de cimento. Esta característica justifica por si só uma das maiores vantagens na utilização de tijolos na construção, proporcionando melhorias significativas de conforto térmico e importantes economias de energia, em resultado da poupança associada aos sistemas de ar condicionado comummente utilizados.

• Estabilidade, Resistência Mecânica e Peso. A resistência mecânica intrínseca dos materiais cerâmicos é superior à dos cimentos (nas condições de composição utilizadas vulgarmente no fabrico de blocos e de barro vermelho). É por este motivo que, empiricamente, podemos observar espessuras de parede nos tijolos que podem ser menos de metade dos seus homólogos em cimento. No entanto, a resistência mecânica à compressão destes dois tipos de elementos de alvenaria é relativamente equivalente33, mas deve realçar-se que os blocos de concreto beneficiam da sua aplicação na vertical. A utilização dos tijolos de furação vertical, de que são exemplo os sistemas construtivos desenvolvidos na Europa (e também já disponíveis no Brasil), permitem construção até 4 pisos com alvenaria simples ou ligeiramente armada, o que é revelador do potencial de desenvolvimento e inovação das soluções construtivas com tijolos cerâmicos, tirando partido da sua excelente resistência mecânica à compressão. Por outro lado, o melhor desempenho dos cerâmicos permite que estes apresentem um menor peso específico, o que permite aligeirar significativamente a componente estrutural de um edifício, uma vez que as cargas a suportar em cada piso se podem reduzir até 50% com a utilização de tijolos em detrimento dos blocos de concreto nas alvenarias.


1 Valores retirados do Anexo A da EN 1745:2005, considerando valores de densidade de referência de 1.800 Kg/m3 para os elementos cerâmicos e 2.000 a 2.400 Kg/m3 para os blocos de betão com agregados correntes. 2 Resistência Mecânica à Compressão de aproximadamente 4 N/mm2 considerando formatos de elementos de alvenaria de 20 cm de espessura, de acordo com especificações técnicas dos fabricantes e estudos disponíveis. 3 Valores de Coeficiente de Transmissão Térmica de Paredes de Alvenaria Simples com 20 cm de espessura do Estudo de Caracterização Térmica de Paredes de Alvenaria, LNEC (1986).

• Absorção de Água, Impermeabilidade e Humidade de Equilíbrio. Este é um requisito essencial de “conforto e higiene” e determinante para as condições ambientais características de alguns Estados do Brasil. Em construções utilizando materiais com elevada humidade de equilíbrio e alta resistência à difusão de vapor de água, a existência de fontes de humidade em quantidades significativas cria nos utentes uma sensação de humidade ambiental excessiva. Dadas as características de porosidade dos materiais cerâmicos, os estudos realizados demonstram a superioridade dos produtos cerâmicos relativamente aos substitutos em cimento, revelando-se como a solução mais eficaz em função dos valores favoráveis de humidade de equilíbrio que evidenciam [1]. A capacidade de absorção de água quer por capilaridade quer por condensação capilar, e também a sua capacidade de armazenamento dessa água, é um factor de diferenciação destes materiais. É empiricamente conhecida a absorção e permeabilidade com blocos de cimento, que contrasta com a impermeabilidade dos materiais cerâmicos (i)4. Esta característica pode traduzir-se no desenvolvimento de humidades que facilitam o desenvolvimento de substâncias insalubres e microrganismos, que condicionam a salubridade das habitações e prejudicam a respectiva funcionalidade. É também importante considerar as consequências na manutenção dos edifícios: numa obra com blocos de concreto é necessário ter cuidados redobrados com impermeabilização para não ter paredes descascadas ou com zonas de humidade prematuras, que originando a sua degradação compulsiva ou custos com manutenção intensiva, sendo também este um dos fatores determinantes da durabilidade quando aplicado em obra.

• Durabilidade. As características que avaliam a durabilidade dos materiais de construção são a resistência ao gelo e o teor em sais solúveis. Se o primeiro não é relevante para o desempenho

em serviço no Brasil, relativamente ao teor em sais solúveis os tijolos evidenciam teores sempre inferiores aos blocos, de que resulta uma maior durabilidade dos materiais cerâmicos e dos respectivos rebocos, quando comparados com alvenarias em blocos de concreto [2].

• Isolamento Acústico. O conforto acústico das habitações resulta da proteção contra os ruídos aéreos exteriores ou entre divisórias ou transmitidos por vibrações através das paredes. Dado que a capacidade de isolamento sonoro dos materiais diminui com a respectiva massa volúmica, os valores apresentados para o isolamento sonoro dos tijolos e dos betões com inertes não permitem distingui-los quanto a esta propriedade [3]. Os tijolos cerâmicos proporcionam índices de redução sonora típicos que garantem que o ruído percepcionado pelos utilizadores se mantém a um nível não lesivo da sua saúde e permite dormir, descansar e trabalhar em condições satisfatórias [4]. E, em caso de requisitos especiais, existem soluções de tijolos cerâmicos semi-maciços ou com propriedades acústicas especialmente vocacionadas para garantir um isolamento acústico superior.

• Resistência ao Fogo. Considerando o enquadramento normativo europeu [5], quer os tijolos cerâmicos quer os blocos de concreto estão classificados na Classe A1 de resistência ao fogo. No entanto, a espessura mínima de parede para uma resistência ao fogo de 60 minutos é de 150 mm de espessura para um bloco de cimento, contra um valor de 90/100 mm dos tijolos5, o que torna evidente o melhor desempenho dos elementos cerâmicos. Assim, a utilização de tijolos cerâmicos é garante de uma maior segurança contra incêndios, particularmente importante em blocos habitacionais com elevada densidade de construção, permitindo garantir um maior período de tempo de protecção das estruturas de suporte de carga, limitar a deflagração e propagação do fogo e fumo (dentro do edifício e às construções vizinhas), assegurando que os ocupantes possam evacuar o edifício ou ser salvos por outros meios e a segurança das equipas de socorro em caso de incêndio. Para além destes aspectos, importa referir que estão em fase de desenvolvimento para futuro lançamento no mercado novas soluções construtivas com alvenarias cerâmicas especialmente destinadas ao mercado Brasileiro, tendo como objetivo a melhoria de aspectos relacionados com a trilogia “resistência – isolamento térmico – isolamento acústico”, e nomeadamente com a introdução de alterações que permitam a evolução das soluções autoportantes, com recurso a alvenaria ligeiramente armada, uma oportunidade para que o tijolo estrutural melhor possa contribuir para a evolução da construção, projetando-a para níveis superiores de qualidade. Como nota final, além das significativas vantagens dos tijolos cerâmicos aqui referidas, fica evidente a dinâmica da indústria de cerâmica estrutural relativamente ao papel que quer assumir processos construtivos do futuro, que deve fazer refletir sobre a necessidade e urgência de promover políticas públicas para o adequado enquadramento desta atividade económica.


1 Colocando água sobre os dois tipos de blocos, a evidência empírica permite verificar que após cerca de 6 minutos a água que havia atravessa as paredes do bloco de cimento e que após 10 minutos o mesmo se encontra totalmente molhado. Os tijolos cerâmicos não permitem a passagem de água e só ao fim de 30 horas a humidade se evidencia no lado oposto.

FONTE: REVISTA DA ANICER Nº 86 –MARÇO DE 2014.